crônica, o autor diz...

O dia em que encontrei o irmão gêmeo de meu pai

sonho

Foto por Oleksandr Pidvalnyi em Pexels.com

Hoje tive um sonho, e nele encontrava o irmão gêmeo do meu pai. Na realidade ele não teve um irmão gêmeo, mas no sonho, eu o via de longe, com as mesmas feições que cristalizaram-se em minha memória: O mesmo cabelo, penteado para trás, formando um topete cinza; o mesmo bigode; o mesmo olhar; a mesma voz.

Mas algumas coisas eram completamente diferentes do homem que existiu no mundo real. Seu comportamento, seu gestual, os amigos que o cercavam naquele encontro imaginário. No sonho, ele tinha outro trabalho, outro estilo de vida, vestia outras roupas, dizia outras frases. Havia se afastado do convívio da família a muitos anos, por isso não o conhecia. E talvez por isso a surpresa. “Queria que meu pai tivesse sido um pouco como você”, pensei.

Acho que aquela idealização sempre existiu em minha mente, desde garoto. Não comprovo nem desminto. Só acho. Será que relação com meu pai teria sido um pouco menos distante se ele fosse um pouco mais parecido com seu gêmeo, idealizado em meu sonho? Nunca saberemos. Não adianta especular. A certeza que eu tenho é a falta que sinto dele como se andássemos juntos todos os dias; até porque, na minha mente, era assim.

Quando contava ao meu tio imaginário que era seu sobrinho e que seu irmão havia partido, ele se ajoelhava e abria os braços, assim como meu pai fazia ao chegar em casa, nos meus tempos de criança. E então eu o abraçava com força, “como eu sinto falta dele!”, dizia em lágrimas. Naquele breve momento, na impermanência daquele sonho, eu deixava de ser homem para voltar a ser criança.

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o autor diz..., reflexão

Nada

Quando eu tinha 23 anos, eu achava que sabia muito sobre a vida.

Mas quando cheguei aos 28, descobri que aos 23 não sabia absolutamente nada.

Hoje tenho 33, e percebi que aos 28 anos eu ainda não sabia nada, mas agora tenho um pouco de certeza de que continuo não sabendo.

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o autor diz...

Era somente uma capa de livro

 

--Tempos atrás participei da produção do catálogo de uma editora. O trabalho envolvia, entre outras coisas, criar capas para os livros que seriam publicados ao longo do ano. Um baita desafio.

Depois de alguns dias e de quase todas as capas prontas, chegou por e-mail a última capa, feita por um colega. Minha primeira reação foi abominar aquela capa. “Nunca vi algo tão terrível!”, pensei.

Confiando nas minha habilidades, decidi fazer minha versão para a capa daquele livro. Depois de algumas horas ficou pronta, “perfeita”. E então apresentei as duas capas para algumas pessoas próximas avaliarem qual estava melhor:

“Eu prefiro a primeira.”

“Eu compraria a primeira capa. Ela chama mais a atenção na prateleira.”

Fui derrotado. Afinal, “como é possível que meu trabalho maravilhoso tenha sido derrotado por algo tão abominável?!” Fiquei com raiva, lamentei muito, reclamei. Eu tinha feito algo que eu realmente acreditava estar melhor que o que chegou naquele e-mail. Eu estava muito confiante da vitória.

Foi quando a ficha caiu.

Eu depositava tanta confiança na minha própria capacidade que não aceitava uma resposta contrária. Era somente uma capa de livro. Provisória. Uma imagem. Não era a final de um campeonato. Não merecia aquela minha reação.

Descobri que eu havia me tornado uma pessoa arrogante. E entendi que isso é algo que realmente acontece debaixo dos nossos narizes, silenciosamente. A linha que separa a confiança da arrogância é mais tênue do que imaginamos, e cruzá-la é muito fácil.

Entendi que esse tipo de situação é uma parte do processo. Eu não vou ganhar todas. Não serei aprovado em 100% das situações. E isso faz parte da vida. O que posso fazer é vigiar pra que eu não cruze mais a linha, e buscar ser melhor no que faço. Não para derrotar o colega do lado, mas para eu possa ser uma pessoa melhor, um profissional melhor.

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crônica, imagem

Autorretrato

autorretrato.2018

Hoje decidi fazer um autorretrato.

Apesar da dificuldade que sempre tive em resenhar rostos, encarei o desafio e desenhei a mim mesmo. Foi uma situação inédita pra mim, a ilustração nem ficou tão boa assim, mas confesso que é uma experiência estranha, mas ao mesmo tempo transformadora.

Especialmente porque todas as vezes que eu olhar pra esse “retrato”, verei a percepção que tive de mim mesmo naquele momento da ilustração. Pode parecer exagerado, mas é como uma análise que fazemos de nós mesmos enquanto o lápis passeia sobre o papel:

“Esse sou eu ou apenas a imagem que consigo fazer de mim mesmo?”

É algo poderoso. E não sei se uma fotografia é capaz de fazer isso.

Provavelmente nunca farei um autorretrato fiel, mas agora compreendi que todas as vezes que eu “por” o meu rosto no papel, estarei registrando ali a percepção que terei de mim mesmo naquele momento. Sempre será um desafio, sim, mas, com certeza é algo que farei mais vezes.

 

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o autor diz..., o autor viu...

A aranha e a formiga

Enquanto escrevo, observo uma luta peculiar. Uma formiga, daquelas grandes, deve ser soldado, com uns cinco milímetros de comprimento, está machucada e não consegue andar.

De repente surge uma aranha, minúsculas, do tamanho de um grão de areia, e começa a rodear a formiga caída, dando umas vinte voltas em torno dela. Enquanto rodeia, faz rápidas investidas, como se quisesse injetar seu veneno paralisante no corpo de sua potencial vítima.

Depois de rodear e atacar, rodear e atacar, a aranha toma coragem e sobe na formiga, que ainda se debate, tentando fugir sem sucesso daquele ataque. A aranha finalmente sobe na cabeça da formiga e fica ali uma fração de segundo, como que anunciando sua vitória. E então volta a rodear a formiga, repetindo o processo. E a formiga, coitada, se revirando.

Aquele ataque dura alguns minutos, e então os resultados aparecem.

Sabe aquelas voltas que a aranha deu entorno da formiga? Ela estava jogando sua teia, invisível, que agora forma um suave casulo, como um saco de dormir de pura seda. A formiga, que antes lutava como podia, está imóvel.

A aranha venceu. E garantiu uma refeição para alguns dias, diga-se de passagem.

A conclusão que tiro disso? Essa é a vida. Enquanto uns vêem o fim, outros enxergam oportunidade.

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