o autor diz..., reflexão

Nada

Quando eu tinha 23 anos, eu achava que sabia muito sobre a vida.

Mas quando cheguei aos 28, descobri que aos 23 não sabia absolutamente nada.

Hoje tenho 33, e percebi que aos 28 anos eu ainda não sabia nada, mas agora tenho um pouco de certeza de que continuo não sabendo.

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Era somente uma capa de livro

 

--Tempos atrás participei da produção do catálogo de uma editora. O trabalho envolvia, entre outras coisas, criar capas para os livros que seriam publicados ao longo do ano. Um baita desafio.

Depois de alguns dias e de quase todas as capas prontas, chegou por e-mail a última capa, feita por um colega. Minha primeira reação foi abominar aquela capa. “Nunca vi algo tão terrível!”, pensei.

Confiando nas minha habilidades, decidi fazer minha versão para a capa daquele livro. Depois de algumas horas ficou pronta, “perfeita”. E então apresentei as duas capas para algumas pessoas próximas avaliarem qual estava melhor:

“Eu prefiro a primeira.”

“Eu compraria a primeira capa. Ela chama mais a atenção na prateleira.”

Fui derrotado. Afinal, “como é possível que meu trabalho maravilhoso tenha sido derrotado por algo tão abominável?!” Fiquei com raiva, lamentei muito, reclamei. Eu tinha feito algo que eu realmente acreditava estar melhor que o que chegou naquele e-mail. Eu estava muito confiante da vitória.

Foi quando a ficha caiu.

Eu depositava tanta confiança na minha própria capacidade que não aceitava uma resposta contrária. Era somente uma capa de livro. Provisória. Uma imagem. Não era a final de um campeonato. Não merecia aquela minha reação.

Descobri que eu havia me tornado uma pessoa arrogante. E entendi que isso é algo que realmente acontece debaixo dos nossos narizes, silenciosamente. A linha que separa a confiança da arrogância é mais tênue do que imaginamos, e cruzá-la é muito fácil.

Entendi que esse tipo de situação é uma parte do processo. Eu não vou ganhar todas. Não serei aprovado em 100% das situações. E isso faz parte da vida. O que posso fazer é vigiar pra que eu não cruze mais a linha, e buscar ser melhor no que faço. Não para derrotar o colega do lado, mas para eu possa ser uma pessoa melhor, um profissional melhor.

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o autor diz...

Autorretrato

autorretrato.2018

Hoje decidi fazer um autorretrato.

Apesar da dificuldade que sempre tive em resenhar rostos, encarei o desafio e desenhei a mim mesmo. Foi uma situação inédita pra mim, a ilustração nem ficou tão boa assim, mas confesso que é uma experiência estranha, mas ao mesmo tempo transformadora.

Especialmente porque todas as vezes que eu olhar pra esse “retrato”, verei a percepção que tive de mim mesmo naquele momento da ilustração. Pode parecer exagerado, mas é como uma análise que fazemos de nós mesmos enquanto o lápis passeia sobre o papel:

“Esse sou eu ou apenas a imagem que consigo fazer de mim mesmo?”

É algo poderoso. E não sei se uma fotografia é capaz de fazer isso.

Provavelmente nunca farei um autorretrato fiel, mas agora compreendi que todas as vezes que eu “por” o meu rosto no papel, estarei registrando ali a percepção que terei de mim mesmo naquele momento. Sempre será um desafio, sim, mas, com certeza é algo que farei mais vezes.

 

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o autor diz..., o autor viu...

A aranha e a formiga

Enquanto escrevo, observo uma luta peculiar. Uma formiga, daquelas grandes, deve ser soldado, com uns cinco milímetros de comprimento, está machucada e não consegue andar.

De repente surge uma aranha, minúsculas, do tamanho de um grão de areia, e começa a rodear a formiga caída, dando umas vinte voltas em torno dela. Enquanto rodeia, faz rápidas investidas, como se quisesse injetar seu veneno paralisante no corpo de sua potencial vítima.

Depois de rodear e atacar, rodear e atacar, a aranha toma coragem e sobe na formiga, que ainda se debate, tentando fugir sem sucesso daquele ataque. A aranha finalmente sobe na cabeça da formiga e fica ali uma fração de segundo, como que anunciando sua vitória. E então volta a rodear a formiga, repetindo o processo. E a formiga, coitada, se revirando.

Aquele ataque dura alguns minutos, e então os resultados aparecem.

Sabe aquelas voltas que a aranha deu entorno da formiga? Ela estava jogando sua teia, invisível, que agora forma um suave casulo, como um saco de dormir de pura seda. A formiga, que antes lutava como podia, está imóvel.

A aranha venceu. E garantiu uma refeição para alguns dias, diga-se de passagem.

A conclusão que tiro disso? Essa é a vida. Enquanto uns vêem o fim, outros enxergam oportunidade.

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